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Rafael Bertoni

Da boca às articulações

Atualizado há 8 horas
Da boca às articulações

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Resumo da Notícia

Na prática clínica, a conexão entre diferentes sistemas é muito mais profunda do que parece.

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Hoje, quero falar sobre um dos exemplos mais fascinantes e críticos dessa interconexão: a relação entre a periodontite, doença odontológica comum na rotina do consultório, e a artrite reumatoide (AR).

Pode parecer estranho pensar que a saúde da gengiva possa influenciar e atingir o funcionamento das mãos ou joelhos, mas a ciência nos mostra que essa “ponte” é sustentada por um processo comum às duas doenças: a inflamação sistêmica.

Tanto a periodontite quanto a artrite reumatoide são doenças inflamatórias crônicas. Na boca, a periodontite inflama e compromete os tecidos de suporte dos dentes devido à presença de bactérias. Já nas articulações, a AR é uma condição autoimune em que o corpo ataca o próprio tecido sinovial, gerando uma cascata de inflamação contra as suas próprias estruturas.

Mas o ponto de encontro entre essas duas doenças é específico: Porphyromonas gingivalis. Essa bactéria, principal vilã da periodontite, possui a capacidade de produzir uma enzima que promove um processo chamado citrulinização, alterando a estrutura das proteínas no nosso corpo.

Quando isso acontece na gengiva inflamada, o sistema imunológico pode deixar de reconhecer essas proteínas como “próprias” e passar a atacá-las. E esse ataque não fica restrito à boca. Os anticorpos produzidos, conhecidos como anti-CCP, podem circular pelo corpo e encontrar proteínas citrulinadas nas articulações, desencadeando ou agravando o quadro de artrite reumatoide. É uma reação em cadeia.

Essa relação também pode ocorrer no sentido contrário, já que pacientes com AR têm probabilidade significativamente maior de desenvolver periodontite.

Sendo assim, o tratamento da periodontite pode ajudar a reduzir a atividade da artrite reumatoide, diminuindo marcadores inflamatórios no sangue.

Quando conseguimos controlar a carga bacteriana e a inflamação bucal, estamos, indiretamente, reduzindo esses efeitos.

Como profissionais, não podemos mais tratar apenas dentes. Entender essa simbiose patológica nos permite oferecer um cuidado muito mais integrado à saúde do paciente.

Manter a saúde periodontal em dia não é apenas uma questão de estética ou de evitar a perda dentária, mas também uma estratégia fundamental para a saúde do organismo como um todo.