Enquanto o país discute Lula e Flávio, o pequeno empresário tem um prazo real - e ele vence antes da eleição.

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O Brasil acordou na segunda-feira com um mapa mais apertado do que as pesquisas desenhavam: Flávio Bolsonaro com 47,05% e Lula com 45,14%, segundo turno marcado para 25 de outubro. Ao redor desse duelo, um número silencia tudo: 33,4 milhões de eleitores ficaram em casa - abstenção recorde de 21,08%, a maior em um primeiro turno presidencial da história.

Mas há outro calendário, menos comentado, que diz respeito a quem emprega e paga impostos. Entre 15 e 30 de outubro - antes ou dias depois do segundo turno -, micro e pequenas empresas precisam decidir como vão recolher o IBS e a CBS a partir de 2027: dentro do Simples Nacional, como sempre, ou pelo regime regular, fora do DAS. É uma escolha estrutural, com efeitos por anos, e está passando despercebida no meio do ruído eleitoral.

O ponto que a campanha não discute: a reforma tributária já é lei. A Emenda Constitucional 132 e a Lei Complementar 214 definiram o que nenhum candidato pode desfazer - a substituição, até 2033, de cinco tributos (ICMS, ISS, PIS, Cofins e IPI) por dois: IBS e CBS. O que a eleição decide não é o “se”, é o “como”: o ritmo da transição e a atenção - ou a falta dela - ao pequeno empresário na hora de calibrar alíquotas, créditos e prazos.

E o cronograma não espera o pleito. 2026 é o ano-teste: as empresas já emitem notas com campos de CBS e IBS em alíquotas simbólicas. Em 2027, a CBS substitui PIS e Cofins - e a alíquota que valerá no ano que vem ainda está sendo calculada, com proposta da Receita em análise no TCU antes de ir ao Senado. Em 2029, começa o IBS, o pedaço mais complexo, porque envolve estados e municípios. Em 2033, o sistema novo estará sozinho.

Para o grande contribuinte, isso é projeto de sistemas e consultoria. Para o pequeno empresário, é questão de sobrevivência administrativa. A não cumulatividade plena abre espaço para recuperar créditos que hoje ficam presos no caixa - mas só para quem entende o jogo. O regime regular pode ser vantajoso para uns e armadilha de fluxo de caixa para outros. O chamado “Simples híbrido” já atraiu mais de 586 mil pedidos: o mercado está votando com os pés, mesmo sem entender inteiramente a pauta.

É aí que os 33,4 milhões de ausentes encontram o balcão do pequeno negócio. Boa parte dos que não votaram não é apática: é exausta - de um sistema que cobra em cinco moedas diferentes e devolve burocracia e insegurança. A abstenção recorde e a fadiga tributária são o mesmo sintoma.

Por isso, a eleição de 25 de outubro importa para o empresário menos como escolha entre dois nomes e mais como definição de quem vai administrar a transição mais profunda do sistema tributário em quatro décadas - com ou sem plano de voo para quem tem uma empresa de 10 funcionários.

O país vai às urnas para escolher entre dois projetos. O pequeno empresário, enquanto isso, tem uma conta para fechar - e o vencimento chega antes do segundo turno.