Tem gente que entra na nossa vida com sede. A gente oferece água, café, colo, escuta, tempo… Quando percebe, já está abastecendo uma cidade inteira e recebendo em troca um “depois te respondo”.

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E a gente ainda justifica:

“É o jeito dela.”

“Ele anda tão ocupado.”

“Mas, no fundo, gosta de mim.”

Esse “no fundo” já virou um lugar tão profundo que só um submarino para encontrar algum vestígio de consideração.

A pessoa não tem tempo para perguntar como você está, mas encontra quarenta minutos para contar os próprios problemas. Some quando você precisa, reaparece quando precisa de você e ainda chega com intimidade:

“Minha amiga, só você para me salvar!”

Claro. Na hora do aperto, você é indispensável. Na hora da alegria, aparentemente perdeu o endereço.

Não se trata de transformar afeto em contabilidade. Ninguém precisa devolver cada ligação, cada gentileza, cada abraço na mesma medida. Há dias em que um só consegue oferecer um copo d’água, e aquilo é tudo o que tem. A vida também exige compreensão.

O problema é quem economiza cuidado com você e esbanja disposição em todos os lugares onde deseja ser visto.

É quem se acostuma tanto à sua generosidade que começa a tratá-la como obrigação. Você ajuda dez vezes. Na décima primeira, diz que não pode. Pronto: descobrem que você mudou.

Mudou mesmo. Antes, você se abandonava para não decepcionar ninguém. Agora, está tentando participar da própria lista de prioridades. Um escândalo para quem gostava de ocupar todas as posições.

E vale a pergunta incômoda: quantas vezes oferecemos demais esperando que alguém finalmente reconheça o nosso valor? Quantas vezes chamamos de entrega aquilo que já era medo de deixar de ser necessário?

Dói admitir. Mas ser procurado porque resolve tudo não é o mesmo que ser querido.

Reciprocidade aparece em coisas pequenas: alguém que lembra, pergunta, escuta a resposta e percebe quando o seu “estou bem” veio sem força. Alguém que também atravessa a rua para encontrar você.

Por isso, continuo acreditando na generosidade. Só estou aprendendo a observar onde ela chega.

Porque até o oceano tem margem.

E quem só aparece para encher o balde precisa aprender a respeitar a minha.