Há quem diga que as cooperativas são um espelho fiel do espírito de sua comunidade. Se isso for verdade, Treze de Maio pode comemorar: a Coorsel mostrou como se constrói um futuro de verdade — com coragem, transparência e, sobretudo, limite de poder.
Sim, limite. Aquela palavrinha mágica que separa instituições modernas de feudos particulares.
Em sua mais recente Assembleia Geral, a Coorsel aprovou — por unanimidade — mudanças históricas em seu Estatuto Social, entre elas o fim da reeleição indefinida para a presidência. Uma decisão madura, republicana e alinhada ao que há de mais saudável na administração cooperativa. O presidente Xela liderou esse processo com a serenidade de quem entende que poder não é propriedade, mas missão temporária. Exemplos assim fazem bem para as instituições. Servem de bússola. Inspiram.
Ou pelo menos deveriam inspirar.
Porque, enquanto a Coorsel inaugura um novo capítulo de alternância e democracia interna, a poucos quilômetros dali Tubarão vive uma realidade bastante “peculiar”. Aqui, o tempo não passa para todos. Especialmente não para Gelson Bento, presidente da Cergal desde 2014 — e reconduzido novamente no início de 2025, sem disputa, por aclamação.
Aplausos? Talvez. Mas não os mesmos que ecoaram no salão paroquial de Treze de Maio.
Afinal, reeleições consecutivas — ainda mais por aclamação e sem concorrentes — podem até soar como reconhecimento absoluto. Mas também soam, para muitos, como o sinal mais clássico de que uma instituição deixou de atrair novas lideranças, novas ideias e novas visões. E quando isso acontece, a quem interessa? Aos cooperados? À inovação? À transparência? Ou à velha zona de conforto que se costuma chamar, com certo romantismo, de “continuidade administrativa”?
Cooperativas não foram criadas para ter donos. Mas, quando alguém se perpetua no comando por mais de uma década, a fronteira entre representar e se apropriar fica perigosamente tênue. E é aí que mora o risco.
Porque a ausência de disputa não significa unanimidade. Significa ausência de alternativa.
Porque a aclamação não significa entusiasmo. Significa falta de voz.
Porque longos mandatos não significam estabilidade. Significam estagnação travestida de rotina.
E toda vez que alguém se eterniza no poder — seja numa cooperativa, sindicato, associação ou órgão público — algo se perde:
a ambição coletiva, a oxigenação das ideias, o surgimento de novas lideranças, a capacidade de romper com erros antigos, a transparência que só existe quando há alternância.
Por isso o exemplo da Coorsel é tão valioso. Porque mostra o quanto é possível romper ciclos confortáveis, renovar estruturas, promover democracia interna e, acima de tudo, entender que ninguém é insubstituível.
Ninguém.
Talvez seja exatamente esse o ponto que Tubarão ainda não aprendeu. Talvez falte um pouco do espírito ousado de Xela por aqui. Ou talvez falte apenas coragem — aquela coragem simples, mas essencial — de admitir que o futuro chega, inevitavelmente. E que, quando uma cooperativa se fecha em torno de uma única figura por mais de uma década, não é o futuro que chega: é o passado que insiste em ficar.






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