Exame de imagem explica sua dor? Nem sempre

imagem gerada por IA

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É comum que pacientes cheguem ao consultório com uma ressonância magnética na mão e uma conclusão pronta: “Está doendo porque tenho desgaste”. Mas a ciência moderna da dor mostra que essa relação não é tão simples.
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Entrar no grupoEstudos de alta qualidade metodológica demonstram que alterações como hérnia de disco, protrusões, degenerações e artrose são extremamente comuns — inclusive em pessoas que não sentem dor alguma. Uma revisão sistemática publicada no The Lancet analisou exames de imagem de indivíduos assintomáticos e encontrou alta prevalência de alterações degenerativas na coluna, mesmo em pessoas sem dor lombar. Em algumas faixas etárias, mais de 50% já apresentavam “desgaste” nos exames — sem qualquer sintoma.
Outro estudo relevante, divulgado no British Journal of Sports Medicine, mostrou achados semelhantes em joelhos e ombros: alterações estruturais nem sempre se correlacionam com dor ou incapacidade.
Isso significa que o exame não serve? Não. Ele é fundamental em casos específicos — como suspeita de fratura, tumor, infecção ou comprometimento neurológico importante. Mas, na maioria dos quadros musculoesqueléticos comuns (como dor lombar não específica), diretrizes internacionais recomendam cautela no uso precoce de exames de imagem.
Outro ponto essencial: dor não é igual a lesão. Segundo a International Association for the Study of Pain, dor é uma experiência sensorial e emocional associada — ou semelhante àquela associada — a dano tecidual real ou potencial. Ou seja, ela envolve processamento cerebral, contexto, experiências prévias e fatores psicossociais.
Em quadros persistentes, muitas vezes o sistema nervoso torna-se mais sensível, fenômeno conhecido como sensibilização central. Nesse cenário, o tecido pode já ter cicatrizado, mas a dor continua. O risco de interpretar o exame como sentença definitiva é transformar um achado comum do envelhecimento em um rótulo incapacitante.
Desgaste não é sinônimo de dor. Imagem não é sinônimo de diagnóstico funcional. E laudo não determina prognóstico. A avaliação clínica, a história do paciente, os testes funcionais e a resposta ao movimento são, na maioria dos casos, mais relevantes do que a imagem isolada.
A pergunta que deveria vir antes do “o que apareceu na ressonância?” é: como está sua força? Como está seu sono? Como está seu nível de atividade física? Como você reage ao movimento?
A ciência atual é clara: tratar apenas a imagem é tratar parcialmente o problema. Dor é mais complexa — e, felizmente, mais modificável — do que um laudo sugere.
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