Em junho de 2021, parte do Champlain Towers South, um condomínio residencial de 12 andares em Surfside, na Flórida, desabou durante a madrugada, enquanto a maioria dos moradores dormia. Noventa e oito pessoas morreram. Foi um dos piores desastres estruturais da história dos Estados Unidos, e um detalhe chamou a atenção de engenheiros do mundo todo: o prédio havia dado sinais.

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Três anos antes, em 2018, um engenheiro contratado pelo próprio condomínio entregou um relatório apontando danos estruturais importantes na laje abaixo da área da piscina, causados por uma impermeabilização que já não cumpria sua função. O documento também registrava fissuras e desplacamento do concreto em pilares, vigas e paredes da garagem e alertava que, sem a troca da impermeabilização, a deterioração tenderia a avançar rapidamente.

O relatório não dizia que o prédio iria cair, mas indicava que os reparos precisavam ser feitos sem demora. O que se seguiu foi um processo que qualquer síndico conhece bem: orçamentos, discussões em assembleia e resistência ao valor da obra. Quando o condomínio finalmente aprovou a cobrança para custear os reparos, estimados em cerca de US$ 15 milhões, já era 2021. A obra não chegou a começar.

É importante ser preciso aqui. A investigação federal americana ainda está sendo concluída, e os resultados preliminares indicam que o colapso provavelmente começou na estrutura da área da piscina e que havia falhas de construção existentes desde a obra original, quarenta anos antes.

Ou seja, não se pode atribuir o desabamento apenas à demora na manutenção. Ainda assim, o caso mostra algo que vale para qualquer edificação: a deterioração de uma estrutura raramente acontece em silêncio. Infiltrações persistentes, fissuras em elementos estruturais, armaduras expostas e concreto se soltando são sinais de que algo está evoluindo.

Em condomínios, a decisão de agir depende de muitas pessoas. Obras que não aparecem, como impermeabilização e recuperação estrutural, costumam perder a disputa para itens visíveis, e cada adiamento parece pequeno quando olhado isoladamente. Enquanto isso, a água continua entrando, a armadura continua corroendo e o custo do reparo continua crescendo.

No Brasil, normas como a NBR 16747, de inspeção predial, e a NBR 5674, de manutenção de edificações, orientam esse acompanhamento. É por meio de inspeções periódicas que os sinais são identificados, classificados por grau de risco e transformados em prioridades. Um laudo bem fundamentado também ajuda o síndico a explicar aos condôminos por que determinada obra não pode esperar, o que muitas vezes é a parte mais difícil.

A tragédia de Surfside deixou uma lição dura. Chamamos de acidente aquilo que ninguém conseguiu prever. Quando o problema já foi identificado e o alerta está no papel, adiar a solução deixa de ser fatalidade e passa a ser uma escolha, com todas as consequências que ela pode trazer.